Derrota Portuguesa - Foi outra vez num penálti de Zidane

A história repetiu-se, o golo decisivo também, desta vez sem tragédias – a França só jogou o necessário, Portugal tentou o que pôde mas só pode igualar os ‘Magriços’ de Eusébio.
Outra vez um penálti de Zidane e outra vez Portugal a cair na meia-final com a França. 1-0 em Munique e aos portugueses resta a final dos inconsoláveis para o terceiro lugar, no sábado, com a Alemanha. Podem igualar os ‘Magriços’, a democracia pode igualar a ditadura no futebol, mas não temos, de facto, nenhum Eusébio.
Desta vez, os velhos franceses não roubaram nada: o penálti existiu e, se a França não jogou tão bem como frente ao Brasil, isso só pode querer dizer que a Selecção de Scolari não fez o suficiente para ganhar. Não foi capaz de o fazer, mas tudo se decidiu por muito pouco. Um penálti – Ricardo Carvalho sobre Henry –, nem sequer daqueles inevitáveis, fez toda a diferença num jogo equilibrado, em que Portugal mostrou todos os seus limites. Sobretudo no ataque – as nossas santas são todas para defender, parece.
Entraram as duas equipas titulares de um lado e de outro, sem surpresas, mas Portugal começou melhor, num ritmo alto e a dominar o primeiro quarto de hora. Um tiro de Deco à entrada da área criou muitas dificuldades a Barthez, que defendeu para a frente, mas Thuram impediu Pauleta de fazer a recarga. Deco perdeu ainda um passe de morte para Pauleta e o ponta-de-lança também chegou atrasado a um cruzamento de Figo, tudo nos dez minutos iniciais.
O jogo estava relativamente aberto para uma meia-final, mas Costinha só tinha olhos para Zidane, Carvalho e Meira dividiam-se com Henry. Do outro lado, Deco enfrentava-se com Makelele e Maniche tinha mais espaço porque Vieira era um dos dois ou três que fechava sobre Cristiano Ronaldo. Já Thuram, sobretudo, não perdia Pauleta de vista.
O segundo quarto de hora foi equilibrado e depois houve a jogada fatal: Henry com a bola à entrada da área, de costas, ameaçou rodar para um lado e foi para o outro, e Ricardo Carvalho derrubou-o com o pé, sem necessidade, porque se calhar Henry nem ficava com a bola. O penálti foi transformado por Zidane, que não correu riscos: sem tomar balanço, chutou seco para a direita de Ricardo, que adivinhou o lado, mas um penálti bem marcado não tem defesa.
Daí até ao fim da primeira parte, a bola foi de Portugal, que teve quatro remates com perigo mas sempre de fora da área. Ameaços, mas não verdadeiras oportunidades de golo. A França, depois do golo, nunca mais teve mais de três jogadores no meio-campo adversário, a não ser em cantos ou livres. Há outras maneiras de gerir o jogo, mas não com tantos homens de 30 anos e mais.
Houve ainda um lance em que os portugueses pediram o castigo máximo, num centro de Figo em que Ronaldo cai ao fazer-se à bola – há um ligeiro toque de Sagnol, mas parece venial e o árbitro Larrionda não atende aos protestos dos portugueses. Protestaram demasiado, muitas vezes pedindo faltas inexistentes em absoluto, os jogadores de Scolari. Mas era preciso jogar mais para demolir aquela rocha francesa.
A França reentrou melhor após o intervalo, e Henry e Ribery tiveram remates perigosos antes de passarem cinco minutos – Ricardo esteve lá de ambas as vezes. Pauleta respondeu logo a seguir com um remate às redes laterais na área à meia-volta e a partir daí a França remeteu-se ainda mais a uma gestão da vantagem. Não precisava da bola, nem a queria muitas vezes. Limitava-se a defender cá atrás e a esperar uma aberta para Henry correr. Não teve muitas, diga-se. Se Portugal dominava o jogo, a verdade é que a França o controlava. Não era a França do jogo com o Brasil, era uma equipa mais modesta, que se impôs menos, mas igualmente eficaz.
Miguel lesionou-se e entrou Paulo Ferreira, Pauleta deu o lugar a Simão, Wiltord entrou em vez de Malouda, Govou trocou com Ribery, Postiga com Costinha – tudo dos 62’ aos 74’.
Portugal teve uma boa oportunidade para o empate, uma só na hora que se seguiu ao golo: um livre a 25 metros da baliza que Cristiano Ronaldo marcou, Barthez tentou agarrar mas a bola fugiu-lhe para a frente e Figo, de cabeça, atirou por cima. Meira ainda foi para a frente, ainda teve um remate perigoso, mas a história, afinal, repete-se, embora desta vez sem tragédias.
PONTAS DE LANÇA
Da maneira que joga Portugal, era preciso um ponta-de-lança alto, forte, rápido. Tudo o que Pauleta não é (e o seu primeiro toque também não é bom). Postiga e Nuno Gomes também não dão para isso. Não se pode ter tudo...
O MOMENTO DO JOGO
PENÁLTI DE ZIDANE DITA DERROTA PORTUGUESA
Tal como na meia-final do Euro’2000, Zinedine Zidane voltou a dar a vitória à França sobre Portugal de grande penalidade. Se no Euro’2000 a alegada mão de Abel Xavier gerou imensa discussão, desta vez a falta de Ricardo Carvalho sobre Thierry Henry foi clara. Chamado a bater o penálti, o veterano Zidane mostrou a frieza dos grandes craques e bateu Ricardo, apesar de o guardião português ter adivinhado para que lado foi a bola.
FICHA DO JOGO
Local: Estádio do Mundial, em Munique.
(8.500 espectadores)
Árbitro: Jorge Larrionda (Uruguai).
PORTUGAL: Ricardo, Miguel (Paulo Ferreira, 62m), Fernando Meira, Ricardo Carvalho, Nuno Valente, Costinha (Hélder Postiga, 75m), Maniche, Deco, Figo, Cristiano Ronaldo e Pauleta (Simão, 68m).
FRANÇA: Fabien Barthez, Willy Sagnol, Lilian Thuram, William Gallas, Eric Abdial, Claude Makelele, Patrick Vieira, Zinedine Zidane, Franck Ribery (Sidney Govou, 72m), Florent Malouda (Sylvain Wiltord, 69m) e Thierry Henry (Louis Saha, 85m).
Marcador: 0-1, Zinedine Zidane (33m, de g.p).
Acção disciplinar: Amarelos - Ricardo Carvalho (82m) e Louis Saha (87m).
UMA DERROTA DOIS ANOS DEPOIS
Portugal perdeu o primeiro jogo competitivo desde a final do Europeu, em Lisboa, a 4 de Julho de 2004. Dois anos e um dia depois da derrota com a Grécia, a equipa de Scolari cedeu novamente pelo mesmo resultado (0-1) e viu-se assim privada de disputar a segunda final consecutiva, bem como do título oficioso de selecção mundial há mais tempo sem perder em desafios de competição. A série portuguesa tinha já 17 jogos: os 12 do apuramento para o Mundial e os cinco feitos até ontem no Mundial propriamente dito.
Se contarmos todos os jogos, incluindo os particulares, Portugal não perdia desde 9 de Fevereiro de 2005, quando cedeu em Dublin ante a República da Irlanda, também por 1-0, em partida amigável. Desde então, sucederam-se 19 jogos sem perder até ao penálti de Zidane que ontem afastou a selecção nacional da final de Berlim. Novamente uma grande penalidade, marcada pelo mesmo jogador que já havia retirado a Portugal a hipótese de jogar a final do Europeu 2000, passando na altura o resultado final para 2-1 favorável à França, que seguiu para a partida decisiva com a... Itália.







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