sábado, agosto 19, 2006

Toranja - Esquissos

Carta

Não falei contigo com medo que os montes e vales que me achas caíssem a teus pés
Acredito e entendo que a estabilidade lógica de quem não quer explodir faça bem ao escudo que és...
Saudade é o ar que vou sugando e aceitanto como fruto de Verão nos jardins do teu beijo...
Mas sinto que sabes que sentes que também que num dia maior serás trapézio sem rede a pairar sobre o mundo e tudo o que vejo...
É que hoje acordei e lembrei-me que sou mago feiticeiro
Que a minha bola de cristal é feita de papel
Nela te pinto nua Numa chama minha e tua
Desconfio que ainda não reparaste que o teu destino foi inventado por gira-discos estragados aos quais te vais moldando...
E todo o teu planeamento estratégico de sincronização do coração são leis como paredes e tectos cujos vidros vais pisando...
Anseio o dia em que acordares por cima de todos os teus números raizes quadradas de somas subtraidas sempre com a mesma solução...
Podias deixar de fazer da vida um ciclo vicioso harmonioso do teu gesto mimado e á palma da tua mão...
É que hoje acordei e lembrei-me que sou mago feiticeiro e a minha bola de cristal é feita de papel
Nela te pinto nua Numa chama minha e tua
Desculpa se fiz fogo e noite sem pedir autoriazão por escrito ao sindicato dos Deuses...
Mas não fui eu que te escolhi
Desculpa se te usei como refugio dos meus sentidos
Pedaço de silêncios perdidos que voltei a encontrar em ti...
É que hoje acordei e lembrei-me Que sou mago feiticeiro...
...nela te pinto nua Numa chama minha e tua
Ainda magoas alguém
O tiro passou-me ao lado
Ainda magoas alguem
Se não te deste a ninguem magoaste alguém
A mim...
Passou-me ao lado.

Onde se junta Durius Dulcis, um poema de João de Araújo Correia:


Depois que me senti envelhecer,
Passo horas e horas no meu lar,
De janela em janela, a espreitar
O breve mundo que me viu nascer.

Tem montes que não deixam de crescer,
Videiras que ninguém pode contar,
Oliveiras que vivem a rezar
E um rio que não para de correr.

Este pedaço de viril beleza,
Este painel de rica natureza
Irá comigo para o Além.

Sempre lhe quis e sempre o defendi,
Fui eu até que um dia o descobri...
Não o posso deixar a mais ninguém.